A mudança de postura do governador para evitar o favoritismo precoce e focar na conexão real com as demandas das ruas.
A contabilidade do poder no Ceará ganhou novos contornos com a postura recente do governador Elmano de Freitas. Pré-candidato à reeleição, o chefe do Executivo estadual demonstrou maturidade política ao puxar o freio de mão do otimismo e diminuir a euforia dentro de seu próprio arco de alianças. A mensagem implícita é clara: contar com a maioria esmagadora dos prefeitos cearenses não significa, de forma automática, ter o passaporte carimbado para mais quatro anos no Palácio da Abolição.
Historicamente, o pragmatismo político dita que uma base sólida de prefeitos é o motor de qualquer campanha majoritária. Eles são os cabos eleitorais de luxo, os operadores do "corpo a corpo" e os responsáveis por capitanear votos nos municípios do interior. No entanto, a estratégia tradicional esbarra hoje em uma realidade incontornável: o eleitor moderno está cada vez mais emancipado e menos suscetível ao chamado "voto de cabresto" ou à mera indicação de lideranças locais.
O recuo na euforia governista é um banho de realidade necessário. Olhar apenas para o mapa de prefeituras aliadas cria uma falsa sensação de unanimidade que desconsidera as complexas demandas das ruas. O apoio de um prefeito sinaliza força partidária e capacidade de articulação institucional, mas não blinda o governo das críticas reais sobre áreas sensíveis como segurança pública, saúde e geração de emprego. É na periferia das grandes cidades e no cotidiano do cidadão comum que a eleição se decide, longe dos palácios e das fotos oficiais de adesão.
Ao reconhecer que o eleitorado não é uma massa homogênea controlada por prefeitos, Elmano evita a armadilha da soberba — o pior erro de quem busca a renovação de um mandato. A história política brasileira está repleta de candidatos que "já ganharam" nas planilhas de apoios partidários, mas amargaram a derrota nas urnas.
A eleição que se aproxima exigirá mais do que a contabilidade de prefeitos convertidos à base governista. Exigirá diálogo direto com o cidadão, capacidade de autocrítica e, acima de tudo, a humildade de entender que o voto pertence ao eleitor, e não ao governante local. Diminuir o salto alto não é um sinal de fraqueza, mas sim o primeiro passo para quem compreende a verdadeira dinâmica da democracia.
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